Monte da Carochinha

Cercal do Alentejo, Portugal

O Monte da Carochinha são 36,5 hectares no interior do Alentejo, perto do Cercal. Uma propriedade que chegou até nós marcada por décadas de eucalipto e pela degradação típica destas paisagens: solos compactados pela maquinaria de abate, linhas de água assoreadas pelo arrastamento de sedimentos, biodiversidade reduzida ao mínimo por ausência de vegetação nativa. O desafio era transformar isto num sistema produtivo, biodiverso e habitado.

A proprietária, Maja Stachowska, tinha uma visão clara mas complexa. Não queria uma quinta convencional nem um eco-resort. Queria algo que integrasse produção alimentar biológica, vida comunitária, residência privada e retiro contemplativo numa paisagem funcional. Um espaço onde agricultura regenerativa, um centro comunitário de inspiração Waldorf, uma habitação principal enraizada na paisagem, e zonas de silêncio pudessem coexistir sem conflitos.

O masterplan foi entregue em Julho de 2024 após seis meses de trabalho intensivo. A análise territorial, o desenho das infraestruturas, a definição de zonas e a selecção de espécies resultaram num documento de 180 páginas que serve de guia para as próximas duas décadas de implementação. Desde o final de 2024, as primeiras intervenções estão no terreno.

Água e acessos

A primeira fase de qualquer projecto Terracrua é sempre a mesma: organizar a água e os acessos. Antes de plantar uma única árvore, antes de construir um único edifício, é preciso garantir que a água fica no sistema e que se pode circular pela propriedade sem criar erosão. Esta sequência não é arbitrária; é a diferença entre um projecto que funciona e um projecto que passa anos a corrigir erros evitáveis.

A precipitação média anual na zona do Cercal ronda os 550 mm, concentrada entre Outubro e Abril. Sobre os 36,5 hectares da propriedade, isto representa um input anual de aproximadamente 200.000 m³ de água. O objectivo do plano é reter pelo menos 4% deste volume, cerca de 8.000 m³, em estruturas distribuídas pela paisagem. Esta água, disponível durante a estação seca para rega de emergência e abeberamento do gado, é também uma reserva de segurança contra incêndios e um habitat para biodiversidade aquática.

O sistema hídrico projectado inclui 3 barragens de vale com capacidade combinada de 8.015 m³. A maior, BV1, tem uma albufeira de 2.006 m² e capacidade de 3.010 m³; a parede tem 28 metros de comprimento e 3,2 metros de altura máxima. BV2 e BV3 têm capacidades de 3.780 m³ e 1.225 m³ respectivamente. Complementam o sistema 6 charcas de encosta com capacidades entre 44.000 e 83.000 litros cada, distribuídas pelos sectores de pastoreio, e uma charca de cumeada com 101.500 litros para captação nas zonas altas.

Extracto do plano de água e acessos. Barragens de vale a azul escuro; charcas de encosta a azul claro; acessos primários a vermelho; secundários a amarelo.

A rede viária totaliza 7.261 metros distribuídos por quatro hierarquias. Os acessos primários norte e sul, com 2.328 metros de extensão combinada e 5 metros de largura, ligam a entrada da propriedade aos principais polos. Os acessos secundários norte e sul, com 2.762 metros, servem os diferentes sectores produtivos. O aceiro perimetral, com 2.171 metros, cumpre função de protecção contra incêndios e acesso a zonas remotas. Cada estrada foi desenhada para captar a água do lado de montante e conduzi-la para estruturas de retenção ou zonas de infiltração.

Infraestruturas

Com a água e os acessos definidos, o passo seguinte foi posicionar as infraestruturas. A complexidade do programa exigiu um exercício cuidadoso de organização espacial: como distribuir funções diferentes de modo a que cada uma encontre o seu lugar certo, sem conflitos, com as infraestruturas partilhadas a servir todos os programas.

O plano posiciona a habitação principal numa zona de declive suave com exposição nascente, protegida dos ventos dominantes por uma cortina arbórea a poente. Os bungalows para visitantes distribuem-se em arco a sul da habitação, com vista para o vale principal e acesso independente. O hub comunitário, com cozinha partilhada, sala polivalente e oficinas, ocupa uma posição central que serve tanto a zona residencial como os espaços de retiro. O armazém agrícola e o estábulo ficam junto ao acesso de serviço, permitindo carga e descarga sem perturbar as zonas habitadas.

Extracto do plano de infraestruturas. Cisternas, Zuni Bowls para infiltração, redes de água e electricidade, posicionamento de edifícios.

O plano inclui quatro cisternas com capacidade total de 140.000 litros para água potável, alimentadas por captação de água da chuva nos telhados dos edifícios. Um sistema de tratamento de águas residuais com fossa séptica e fito-ETAR processa os efluentes domésticos e devolve água tratada às zonas de infiltração. A rede de abastecimento totaliza 2.400 metros de tubagem em PEAD de diâmetros entre 32 e 63 mm, com pontos de rega distribuídos pelos sectores produtivos. A rede eléctrica enterra-se junto aos acessos para facilitar manutenção.

Zonamento

O zonamento distribui os usos pela propriedade segundo a lógica permacultural adaptada à escala. A Zona 1, com 2.115 m² junto à habitação principal, alberga jardins aromáticos, horta doméstica e estufa de propagação. A Zona 2, com 23.320 m², divide-se entre pomar mediterrânico de 17.700 m² e duas parcelas de agrofloresta que totalizam 5.620 m². Estas são as zonas de maior intensidade de maneio e maior produtividade por unidade de área.

A Zona 3, com 71.648 m², corresponde às pastagens e culturas arvenses em sistema de montado. Esta zona subdivide-se funcionalmente: 54.000 m² de pastagens rotacionais para gado bovino e ovino, e 17.648 m² que integram o hub comunitário com zonas de reunião ao ar livre, caminhos pedonais e vegetação ornamental. É a zona de transição entre o intensivo e o extensivo, onde a produção convive com usos recreativos e educativos.

Extracto do plano de zonamento. Cada cor representa um uso específico, da Zona 1 (mais intensiva) à Zona 5 (conservação).

A Zona 5, com 175.800 m² ou quase 18 hectares, é a reserva ecológica. Ocupa 48% da área total da propriedade e inclui as encostas de maior declive, as galerias ripícolas ao longo das linhas de água, e os afloramentos rochosos com vegetação rupícola. Nestas áreas não há intervenção produtiva; a vegetação evolui naturalmente para floresta mediterrânica, com sobreiros, azinheiras, medronheiros, zambujeiros e o sob-coberto arbustivo característico. É o pulmão verde da propriedade, o refúgio da fauna selvagem, e o garante da estabilidade hidrológica de todo o sistema.

Vegetação estrutural

O plano de vegetação detalha mais de 15.000 plantas distribuídas por funções. O pomar mediterrânico em padrão keyline inclui 2.269 árvores: oliveiras, amendoeiras, alfarrobeiras e figueiras organizadas em linhas de 8 metros de espaçamento, com 6 metros entre árvores na linha. A densidade resultante de 208 árvores por hectare permite mecanização integral das operações de manutenção e colheita. As duas parcelas de agrofloresta incluem 697 árvores em sistemas mais densos e diversificados, combinando fruteiras, leguminosas fixadoras de azoto, e espécies produtoras de biomassa.

A galeria ripícola junto às charcas inclui 1.437 árvores de espécies hidrófitas: salgueiros, freixos, amieiros e choupos nas zonas de maior humidade; sanguinhos, sabugueiros e loendros nas zonas de transição. Estas plantações protegem as margens da erosão, filtram sedimentos antes de chegarem às albufeiras, criam habitat para fauna aquática, e produzem biomassa para mulching das zonas produtivas. A floresta de cumeada inclui 2.184 árvores de espécies autóctones para repovoamento das zonas degradadas pelo eucalipto.

Extracto do plano de vegetação estrutural. Linhas de plantação em keyline, galerias ripícolas, sebes de protecção.

As sebes de acessos e perímetro totalizam mais de 8.000 plantas de espécies arbustivas: aroeiras, murtas, adernos, zambujeiros, medronheiros, folhados e espécies melíferas como rosmaninho, tomilho e alecrim. Estas sebes funcionam como quebra-ventos, barreiras contra propagação de pragas, corredores de biodiversidade, e fonte de néctar e pólen para polinizadores. A selecção de espécies privilegia plantas autóctones com múltiplas funções: produção de fruto, madeira, biomassa, mel, habitat para fauna auxiliar.

Do papel ao terreno

Desde o final de 2024, as primeiras intervenções estão no terreno. As estradas de acesso primário estão construídas, alinhadas ao relevo e aos fluxos de água, com valetas e passagens hidráulicas nos pontos necessários. A primeira barragem de vale está em construção, com movimentação de terras em curso durante a janela seca do Outono. A preparação das zonas produtivas começou com a limpeza selectiva de eucalipto e acácia, preservando a vegetação nativa existente.

O calendário de implementação prevê cinco anos para a conclusão das infraestruturas principais e dez anos para a maturação do sistema produtivo. Nos próximos dois anos, o foco estará na conclusão da rede hídrica, na plantação das zonas de pomar e agrofloresta, e na instalação das infraestruturas básicas do hub comunitário. O investimento total para o ciclo 2024-2029 está orçamentado em 420.000 euros, incluindo terraplenagens, construção, sistemas de rega, vedações, e material vegetal.

O que este projecto representa

O Monte da Carochinha é um dos projectos mais complexos que a Terracrua Design desenvolveu até hoje. Não pela área, 36 hectares são uma escala média, mas pela sobreposição de programas e pela ambição de criar um lugar que funcione simultaneamente como exploração agrícola, espaço educativo, residência e retiro. Cada decisão de projecto teve de ponderar múltiplas exigências, por vezes contraditórias: privacidade versus comunidade; produção versus contemplação; intensificação versus conservação.

É também um exemplo do que pode acontecer a terrenos degradados pelo eucalipto quando são reimaginados como sistemas vivos. O que era monocultura está a tornar-se mosaico. O que era extracção está a tornar-se regeneração. O que era paisagem vazia está a ganhar função, diversidade e presença humana permanente. Para nós, é um testemunho do método: desenhar com precisão, respeitar a sequência, e acompanhar a implementação até que o plano se torne paisagem real.

Terracrua Design

Cercal do Alentejo, 2024/2025